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22/12/2003

Montagem  sobre fotos de Marcelo  Ferrelli/Gazeta Press

Por Fernando Narazaki

Em 30 de setembro de 1988, o meio-pesado Aurélio Miguel trouxe a primeira medalha de ouro do judô, após bater o alemão Marc Melling na final das Olimpíadas de Seul. No Brasil, dois meninos de cinco anos assistiram deslumbrados à conquista histórica do judoca e resolveram praticar aquela modalidade, até então, desconhecida.

Foto Marcelo Ferrelli/GP
Luis Camilo (azul) e Leandro Guilheiro durante a primeira seletiva para as Olimpiadas de Atenas-2004

Pouco mais de 15 anos depois, o brasiliense Luciano Corrêa e o paulista Leandro Guilheiro deram o primeiro passo para repetir o feito do ídolo, que assistia da tribuna de honra à vitória de duas de 'suas crias'. Os dois venceram a primeira etapa da seletiva para os Jogos de Atenas-2004, disputada nesse domingo em São Paulo, e agora precisam vencer a etapa de Minas Gerais (em março) ou a terceira (em local a ser definido, em abril).

Os dois jovens foram responsáveis pelas maiores surpresas da etapa. Guilheiro derrotou Luis Francisco Camilo, ouro no Pan de Santo Domingo, na categoria meio-leve por 2 a 0, enquanto Corrêa bateu Mário Sabino, ouro no Pan e bronze no Mundial de Osaka, por 2 a 1 no meio-pesado.

O triunfo do brasiliense foi mais dramático, já que o atleta do Minas Tênis Clube perdeu o primeiro combate por um waza-ari. Com 21 anos, o judoca reagiu e empatou o duelo, forçando duas punições ao rival no segundo combate.

Na terceira e decisiva luta, os dois travaram um duelo muito equilibrado e ambos somaram pontos apenas nas punições por falta de combatividade no tempo normal e na prorrogação. A decisão foi para a bandeirada e dois árbitros deram a vitória ao brasiliense, que se atirou no tatame após o triunfo.

'Eu nem acredito. Hoje (domingo), eu comecei muito mal e tive de botar a cabeça no lugar. Ainda bem que consegui virar', explica Corrêa, que só entrou no judô a pedido dos pais. 'Eles me levaram para o judô e foi muita luta até aqui', comenta.

Para ele, a responsabilidade será ainda maior, já que disputa a mesma categoria que seu ídolo de 15 anos. 'Eu via o Aurélio na TV, pedi autógrafo para ele e nem consigo acreditar que posso ir na vaga dele', diz Corrêa.

O brasiliense espera repetir o mesmo sucesso em Ipatinga, quando espera contar com o apoio da torcida. 'Eu quero o ginásio cheio e torcendo por mim. Não tem favorito no judô e provei isso hoje (domingo). O Mário é um grande judoca e sei que a coisa não será fácil, mas estou otimista', comenta o judoca, que descarta pensar em Atenas. 'Vamos passo a passo. Se levar a vaga, eu penso nisso', diz.

Outra cria de Aurélio Miguel é o meio-leve Leandro Guilheiro, que entrou no judô animado com os resultados do ídolo. 'Comecei pouco depois do ouro do Aurélio. Torcia direto por ele, chorei muito quando perdeu em 1992 e fiquei revoltado com o bronze em 1996', destaca Guilheiro, que depois ainda pôde treinar com Rogério Sampaio, ouro em Barcelona-1992.

Para ele, o contato com os dois medalhistas foi fundamental para acreditar em seu sucesso. 'O maior estímulo que recebi foi acreditar que podia conseguir. Via o Rogério treinando todo dia comigo lá em Santos (onde Sampaio tem uma academia) e percebi que podia conseguir. Ele era de carne e osso, e eu também podia chegar lá e estou muito perto', afirma.

Nesse domingo, o jovem de 20 anos surpreendeu Camilo por 2 a 0 na mesma categoria em que Sampaio foi campeão olímpico. 'Ainda tem mais um passo para dar. Sei que a próxima luta será diferente e ele vai vir com tudo, mas espero manter o bom ritmo', destaca Guilheiro, que não perde uma luta desde junho deste ano.

Das tribunas, o ídolo dos dois jovens dava um sorriso largo, enquanto assistia aos combates da seletiva. 'Nem dá para acreditar que faz tanto tempo. Estou muito feliz por ter ajudado o judô a chegar neste estágio. É uma satisfação', disse Aurélio, enquanto abraçava Guilheiro. Um presente para o ídolo.

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